Rosa, peônia e lírio sobre fundo preto, em luz lateral de pintura clássica

O que cada flor costuma significar na tatuagem

Floral é o que mais sai do meu estúdio, e a pergunta que vem junto é sempre a mesma: o que essa flor significa. A resposta honesta é que depende de quem está respondendo, de que século e de que país. Mas existe uma história por trás disso, ela é ótima, e conhecê-la ajuda mais do que decorar uma lista de significados que alguém publicou na internet.

Rosa, peônia e lírio sobre fundo preto, em luz lateral de pintura clássica

Por Stephanie Gama · Tatuadora em Curitiba27 de julho de 20269 min de leitura

A linguagem das flores tem uma história, e ela é mais recente do que parece

Floriografia é o nome que se dá ao sistema de atribuir significados a flores, de forma que um buquê possa carregar uma mensagem. Muita gente imagina que isso seja uma tradição milenar universal. Não é. O que existe é um conjunto de práticas culturais diferentes, e a versão que virou moda no Ocidente tem data e endereço razoavelmente identificáveis, o que já é bastante para uma tradição simbólica.

A raiz mais citada é o selam, um costume otomano de associar objetos e flores a palavras ou versos, formando mensagens. Quem levou isso para o público europeu foi Lady Mary Wortley Montagu, que morava em Constantinopla como esposa do embaixador britânico e descreveu a prática em cartas escritas por volta de 1717. Essas cartas circularam depois na Europa e fizeram um sucesso enorme.

É importante notar que o selam original funcionava mais por rima e som do que por simbolismo poético, e a versão europeia reinterpretou bastante a coisa. Ou seja: já na origem da moda ocidental existe uma camada de tradução livre. Isso explica muito da bagunça que veio depois.

Da França vitoriana aos dicionários de flores

No século XIX a coisa virou indústria editorial. O livro geralmente apontado como o primeiro dicionário de flores é Le Langage des Fleurs, publicado na França em 1819 sob o nome de Charlotte de Latour. Ele fez muito sucesso e gerou uma enxurrada de imitações e adaptações, principalmente na Inglaterra vitoriana, onde falar de sentimento diretamente era socialmente complicado.

A partir daí surgiram dezenas de dicionários, cada um com sua lista. E aqui está o detalhe que ninguém conta: eles se contradiziam. A mesma flor recebia significados diferentes em livros diferentes, publicados na mesma década, no mesmo idioma. Não existia autoridade central, existia um mercado de livrinhos elegantes de presente.

Então, quando alguém te disser que uma flor significa exatamente tal coisa, a pergunta certa é: segundo quem, e em que país. Não é implicância nem preciosismo. É a diferença entre carregar uma referência que você sabe de onde veio e carregar um boato bonito que circulou o suficiente para parecer verdade. Como tatuagem é permanente, eu prefiro ficar do lado da referência.

Rosa, peônia e lótus

A rosa é a mais universal e a mais previsível: amor, paixão, entrega. Nos dicionários vitorianos a cor mudava a mensagem, e a rosa vermelha ficou como declaração amorosa por excelência. É a flor que mais tatuo e a que menos precisa de explicação. O que costuma mudar é a intenção pessoal: muita gente tatua rosa por causa de uma avó chamada Rosa, e isso ganha da floriografia inteira.

A peônia tem duas leituras que convivem. Na China ela é associada a riqueza, honra e prosperidade, e aparece com esse peso na arte tradicional. Nos dicionários vitorianos ela costuma aparecer ligada a timidez ou vergonha, o que é quase o oposto. Duas culturas, dois sentidos, nenhum errado.

A lótus é a que tem a metáfora mais forte e mais direta: ela nasce na lama e floresce limpa na superfície. Por isso aparece no hinduísmo e no budismo ligada a pureza, despertar e renascimento. É a flor que as pessoas mais me pedem depois de uma fase difícil, e a metáfora funciona sem que ninguém precise explicar.

Girassol, lavanda e margarida

O girassol carrega a ideia de seguir a luz, e a associação vem em parte do mito grego de Clítia, que se transforma em flor e passa a acompanhar o sol com o olhar. Nos dicionários do século XIX ele aparece ligado a adoração, e às vezes a falsa riqueza, dependendo do livro. As minhas clientes tatuam girassol quase sempre com sentido de alegria ou de homenagem a alguém solar.

A lavanda é um caso divertido de contradição. Vários dicionários vitorianos a listam como desconfiança, o que surpreende todo mundo. O sentido que a gente usa hoje é o oposto: calma, cuidado, sono, serenidade. E esse sentido moderno vem menos do simbolismo antigo e mais do uso real da planta em óleo e em chá. É simbolismo por experiência, não por tradição.

A margarida é a mais consistente entre as fontes: inocência, simplicidade, pureza. É também a flor mais subestimada como desenho, porque a estrutura radial dela é elegante e cicatriza bem quando a escala respeita a espessura das pétalas. Eu tatuo muita margarida em composição pequena de antebraço.

Flor de cerejeira, cravo e orquídea

A flor de cerejeira, a sakura, é indissociável da cultura japonesa e do sentido de beleza efêmera: ela floresce intensamente e cai em poucos dias. O costume de contemplar essa floração é uma prática cultural viva no Japão. Como tatuagem, ela quase sempre é escolhida por quem quer marcar que alguma coisa foi linda e passou, e não por acaso é um dos meus pedidos favoritos.

O cravo é o mais politicamente carregado da lista. Em Portugal ele é símbolo da Revolução dos Cravos, de 1974, quando cravos vermelhos foram colocados nos canos das armas. Nos dicionários vitorianos os significados variam bastante conforme a cor. E em vários países ele é flor de homenagem materna. Três camadas completamente diferentes na mesma flor.

A orquídea aparece nas listas ligada a refinamento, beleza rara e luxo, e essa leitura tem a ver com a mania vitoriana de colecionar orquídeas exóticas, que era um esporte caro. Hoje, no estúdio, ela é pedida sobretudo por elegância de forma. É uma flor difícil de tatuar pequena, porque a graça dela está na assimetria das pétalas.

Camélia, hortênsia e crisântemo

A camélia carrega uma carga romântica que vem em boa parte da literatura: A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, publicado em 1848, fixou a flor como símbolo de um amor específico e trágico. No Japão ela tem outras leituras, ligadas ao modo como a flor cai inteira do galho. É uma flor com muito significado acumulado para quem quiser puxar essa conversa.

A hortênsia é outro caso de contradição declarada. Alguns dicionários vitorianos a associam a frieza ou desprezo, enquanto o uso contemporâneo, especialmente influenciado pelo Japão, tende a leituras de gratidão e de compreensão. Curitiba tem hortênsia em jardim de casa por todo lado, e boa parte das minhas clientes que tatua hortênsia está tatuando a casa da avó, não um dicionário.

O crisântemo é a flor que mais muda de sentido conforme o país. No Japão ele é símbolo imperial e associado a longevidade e nobreza. No Brasil, em Portugal, na Itália e na França ele está fortemente ligado a cemitério e a homenagem aos mortos. A mesma flor, num continente é honra e no outro é luto.

O que as minhas clientes dizem que a flor significa

Depois de dez anos tatuando, posso te dizer com tranquilidade que o significado do dicionário quase nunca é o motivo real. Uma cliente tatua peônia porque a mãe cultivava. Outra tatua lótus porque saiu de um casamento. Outra tatua girassol porque era o apelido da irmã. A floriografia entra como uma confirmação simpática depois, não como origem da escolha.

E eu acho isso melhor do que a versão canônica. Um símbolo que só significa o que um livro de 1819 disse é um símbolo emprestado. Um símbolo que significa a sua avó é seu. Quando a cliente chega com a lista da internet impressa e nenhuma história, eu costumo perguntar por que aquela flor e não outra, e quase sempre aparece uma história melhor que a lista.

A conclusão prática é essa: use a floriografia como repertório, não como regra. Ela te dá camada, contexto e uma boa conversa quando alguém perguntar sobre a sua tatuagem. O que ela não faz é decidir por você, e ninguém que olhar a sua pele vai consultar o mesmo dicionário que você consultou antes de escolher. O significado que fica de pé é o que você conta.

Quantos elementos cabem sem virar mancha

Agora a parte que é minha. O erro mais comum em floral é querer muitos elementos num espaço pequeno: três flores, folhagem, borboleta, nome escrito e um pontilhado de fundo, tudo num antebraço de dez centímetros. Cada elemento precisa de espaço em branco para existir. Quando esse espaço encolhe, o olho para de separar as formas e passa a ver uma massa cinza.

A regra que eu uso é simples e não é minha invenção, é ofício: quanto mais elementos, maior a peça precisa ser, e não menor cada elemento. Reduzir o tamanho de cada flor para caber mais flores é o caminho direto para o desenho fechar. Prefiro tirar um elemento a espremer todos.

Também penso na hierarquia dos elementos. Uma composição floral boa tem um elemento principal, um secundário e o resto sustentando os dois. Quando tudo tem o mesmo peso visual, o olho não sabe onde pousar e nada é realmente visto. Isso vale para tatuagem exatamente como vale para qualquer imagem, e é a diferença entre uma peça que se lê de longe e uma que só funciona de perto.

Por que detalhe pequeno fecha com o tempo

Tatuagem não é impressão em papel. O pigmento fica na derme, dentro de tecido vivo que continua se reorganizando por muito tempo. A fase de remodelamento de uma ferida começa por volta da terceira semana e pode durar até doze meses, e ao longo dos anos o pigmento se espalha microscopicamente. Duas linhas muito próximas hoje podem se tocar depois.

É por isso que eu abro os espaços internos de uma flor mais do que parece necessário no desenho em papel. O que parece um pouco vazio no dia da sessão costuma ser exatamente o que mantém a flor legível anos depois. Explico esse raciocínio em detalhe no texto sobre como uma tatuagem envelhece, e ele é a base de quase toda decisão de escala que eu tomo.

Some a isso o sol, que é o principal acelerador de perda de densidade. Existe medida de fotodegradação de pigmento em laboratório, e um em cada cinco tatuados relata problema relacionado ao sol. Em traço fino de floral, perder densidade é perder o desenho, não só a intensidade da cor: a pétala deixa de ter contorno e vira uma sombra.

A escala, então, se decide olhando quantos elementos você quer, que espessura mínima de traço aquela região aguenta e onde a peça vai ficar. Na conversa antes de agendar, no meu estúdio no Hauer, eu desenho a peça no tamanho pedido e no tamanho que eu acho que ela deveria ter, lado a lado, e a decisão costuma se resolver sozinha ali. Se for a sua primeira vez, vale ler antes o texto sobre primeira tatuagem e o de cuidados pós-tatuagem, porque floral é generoso: dá para começar com uma flor e crescer a composição ao longo dos anos.

Perguntas que sempre chegam

Sobre este assunto

Existe um significado oficial para cada flor?

Não existe. Os dicionários de flores do século XIX se contradiziam entre si, publicados na mesma década e no mesmo idioma. Além disso, o sentido muda por cultura: o crisântemo é nobreza no Japão e flor de cemitério no Brasil. Use a floriografia como repertório, não como regra.

De onde veio a linguagem das flores?

A raiz mais citada é o selam, costume otomano de associar objetos e flores a palavras. Lady Mary Wortley Montagu descreveu a prática em cartas escritas por volta de 1717, em Constantinopla, e elas circularam na Europa. O primeiro dicionário de flores costuma ser apontado como Le Langage des Fleurs, de 1819.

Qual flor significa recomeço?

A lótus é a escolha mais direta, porque nasce na lama e floresce limpa na superfície, o que a liga a pureza e renascimento no hinduísmo e no budismo. Mas vale lembrar que quase nenhuma cliente escolhe a flor pelo dicionário. Se outra flor tem a sua história, ela significa mais.

Quantas flores cabem num antebraço?

Depende do tamanho de cada uma, não da vontade. A regra é que mais elementos pedem uma peça maior, e não elementos menores. Espremer três flores, folhagem e um nome num espaço pequeno é o caminho direto para o desenho fechar e virar uma massa alguns anos depois.

Por que floral pequeno fecha com o tempo?

Porque o pigmento fica em tecido vivo que continua se reorganizando. A fase de remodelamento começa por volta da terceira semana e pode durar até doze meses, e ao longo dos anos o pigmento se espalha microscopicamente. Duas linhas muito próximas hoje podem se tocar depois. Por isso eu abro os espaços internos.

Flor colorida desbota mais?

Depende da classe química do pigmento. Nos testes de fotodegradação, ftalocianinas, quinacridonas e dioxazinas se mostraram estáveis, enquanto todos os pigmentos azo estudados se degradaram. O que não existe medido é quanto tempo cada tinta de cada marca dura na sua pele. Protetor solar depois de cicatrizado é o que mais ajuda.

De onde vieram os dados deste texto

Nenhum número aqui é chute. Cada prazo, percentual ou norma citada acima veio de uma destas fontes, e onde a literatura não tem resposta fechada o texto diz isso em vez de inventar. Nada substitui avaliação de um profissional de saúde.

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