Primeira tatuagem: o que eu conto para quem nunca tatuou
Documento, escolha do desenho, região, medo da dor e o que acontece do estêncil ao curativo. O guia de quem chega sem saber por onde começar.
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Chegar preparada muda mais a sua sessão do que qualquer creme anestésico que alguém te indicou. Eu vejo isso toda semana no meu estúdio, no Hauer: duas pessoas na mesma região, com o mesmo desenho, e experiências completamente diferentes só por causa do que aconteceu nas vinte e quatro horas anteriores. Aqui está a lista do que realmente pesa.
Criado-mudo à noite com copo de água, documento com foto e casaco dobrado, na véspera da sessão
A orientação da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro é clara e é a que eu sigo: alimente-se pelo menos três horas antes da sessão. Não é para você chegar estufada e nem para chegar com o estômago vazio. É para o seu corpo ter combustível disponível quando o processo começar, porque tatuar é estímulo contínuo e o organismo responde a isso gastando energia.
Chegar em jejum é o erro mais comum e o mais fácil de evitar. A pessoa fica ansiosa, perde a fome de manhã, sai correndo e senta na cadeira sem ter comido nada desde a noite anterior. O resultado costuma ser o mesmo: mal-estar, tontura, suor frio, palidez. Nada disso é perigo na maioria dos casos, mas interrompe a sessão e assusta.
Comida de verdade, não café e um biscoito. Refeição com consistência, do jeito que você come normalmente. E leve algo doce no bolso para o meio da sessão, porque uma pausa curta com um pouco de açúcar resolve muita queda de disposição sem precisar encerrar nada.
A mesma fonte brasileira orienta evitar álcool no dia da tatuagem, e essa é uma regra que eu aplico sem margem de negociação. Não é moralismo. É que álcool interfere no sangramento durante o procedimento, e sangramento a mais atrapalha a leitura do traço enquanto eu trabalho, além de deixar a região mais reativa depois.
Também não vale a lógica de tomar uma para relaxar. O relaxamento que você busca ali é o de quem dormiu bem e comeu, não o de quem bebeu. E se você chegar tendo bebido, eu não tatuo naquele dia. Eu prefiro remarcar e ouvir uma reclamação do que fazer uma sessão em condição que não é boa para nenhuma das duas.
Ressaca conta como álcool no corpo, e é bom deixar isso explícito porque muita gente marca sessão para o domingo depois do sábado. Corpo desidratado e mal dormido tolera pior, sangra diferente e cicatriza pior. Se a véspera foi de festa, me avise e a gente remarca sem drama. Existe um artigo separado aqui sobre quando é melhor adiar a tatuagem, e essa é uma das situações que estão lá.
Dormir bem na véspera é o preparo mais barato que existe e o que menos gente leva a sério. Noite mal dormida deixa o corpo com tolerância baixa a qualquer estímulo, e você vai sentir isso na primeira meia hora. Não existe truque que compense uma noite de duas horas de sono, e chegar exausta transforma uma sessão tranquila numa maratona.
Hidratação funciona em dois níveis. No dia, beber água ajuda você a se sentir melhor e a aguentar melhor. No médio prazo, pele hidratada trabalha melhor: recebe o pigmento de forma mais uniforme e responde melhor ao processo. Se você tem uma sessão marcada para daqui a alguns dias, começar a hidratar a região desde já é uma boa ideia.
O que eu peço é hidratação de rotina, com produto sem fragrância pesada, e nada de novidade na véspera. Não é hora de testar um creme que você nunca usou justamente na área que vai ser tatuada. Se der reação, você descobre no pior momento possível.
Duas coisas atrapalham de verdade e as duas são evitáveis. A primeira é se depilar rente na véspera. Depilação agressiva perto da sessão deixa a pele irritada, com microlesões e às vezes com folículos inflamados, e eu não trabalho sobre pele nesse estado. Se precisar aparar, faça com antecedência e sem lâmina rente na área. No dia, eu mesma preparo a região da forma correta.
A segunda é chegar com pele queimada de sol. Pele vermelha, quente, descamando ou sensível ao toque não recebe tatuagem. É uma pele já em processo inflamatório, que vai doer muito mais, sangrar diferente e cicatrizar de forma imprevisível. Se você passou o fim de semana na praia e a região é a que pegou sol, a sessão vai ser remarcada, e é melhor você saber disso antes de se deslocar.
Também não tatuo sobre lesão ativa na área: ferida, dermatite, alergia em curso, machucado recente, pinta. Essa última não é negociável em nenhuma circunstância, porque pigmento por cima de uma pinta dificulta a leitura visual dela e pode atrasar um diagnóstico. Eu escolho outra posição junto com você.
Roupa que dê acesso à região, e isso costuma exigir mais planejamento do que parece. Se a tatuagem é em costela, você precisa de peça que suba ou abra. Se é em coxa, shorts largo funciona muito melhor do que calça justa que precisará ficar enrolada apertando a área. Se é em ombro ou omoplata, alça fina ou blusa que solte resolve. Pense nisso na véspera e não na frente do espelho do estúdio.
Segundo detalhe: use roupa que você não se importe de manchar. Sai plasma, sai tinta, e tecido claro raramente sobrevive. Preto é mais seguro. E prefira peça larga também para a volta para casa, porque tecido colado sobre tatuagem nova é atrito contínuo, que é uma forma disfarçada de esfregar a região durante horas.
Leve documento com foto, que é obrigatório e sem ele a sessão não acontece. Leve água, algo para comer, fone de ouvido se você se distrai melhor com música, e um casaco. É comum sentir frio durante a sessão, mesmo em dia quente, e isso pega muita gente de surpresa aqui em Curitiba.
Alergias, medicamentos que você usa e condições de saúde entram na conversa antes de a gente agendar, não na hora de sentar na cadeira. Alergia a látex e alergia a anestésico local mudam material e procedimento. Uso de anticoagulante, distúrbio de coagulação, diabetes, imunossupressão, epilepsia, gravidez e amamentação são situações que eu não avalio clinicamente e que às vezes indicam adiar e conversar com um médico primeiro.
Seja bem específica e não filtre a informação por conta própria achando que não é relevante. Um remédio de uso contínuo que você toma há anos e nem lembra mais que toma pode ser exatamente o dado que muda a decisão. Isotretinoína, por exemplo, é um caso em que eu prefiro sempre conversar antes.
A minha conduta é sempre a mesma nesses cenários: eu não faço avaliação médica, eu adio e mando você conversar com quem é da área. Não é excesso de cautela nem desinteresse. É o limite honesto da minha competência, e eu prefiro perder uma sessão a atravessar essa linha. Escrevi um artigo detalhando cada uma dessas situações.
Chegue com folga. Correr para não atrasar já eleva a tensão antes de começar, e tensão muscular atrapalha até o traço. Ao chegar, a gente confere o desenho, discute tamanho e posicionamento, e eu preparo a região. Agulhas e lâminas são de uso único e abertas na sua frente, e a antissepsia da pele é feita com água e sabão mais álcool 70% ou PVPI alcoólico, conforme a Anvisa orienta.
Depois vem o estêncil, que é o desenho transferido para a pele. Olhe no espelho com calma e fale com sinceridade se alguma coisa não te agradou. Estêncil é para ser ajustado quantas vezes forem necessárias. Muita gente segura uma insatisfação pequena por educação e depois se incomoda com ela para sempre. Não faça isso.
Pausas fazem parte. Eu não sigo uma sessão em linha reta quando percebo que a pessoa está travada, e você pode pedir pausa quando quiser, sem justificar. Beber água, esticar o corpo, respirar, ir ao banheiro. Corpo tenso responde pior e é mais difícil de trabalhar, então parar é do interesse das duas.
Antes de você ir embora, eu limpo a região e aplico o curativo, e a gente conversa sobre o pós. A Cleveland Clinic orienta manter o curativo inicial por pelo menos três horas ou mais, conforme o tamanho da tatuagem, e área maior fica coberta por mais tempo porque libera plasma por mais tempo. Eu te digo qual é o seu caso ainda no estúdio.
A primeira lavagem acontece quando o curativo sai, e não no dia seguinte por medo de mexer. Plasma e resto de tinta secando por cima da ferida viram crosta grossa, e crosta grossa racha, repuxa e leva pigmento junto quando sai. Lave com a mão limpa, com sabonete suave sem fragrância e água morna, sem jato direto de água, e seque com toques leves.
Nas primeiras horas, evite o óbvio: sol na região, academia, imersão em água e roupa apertada por cima. Durma de um jeito que não pressione a área, se der. Todo o resto do protocolo, fase por fase, está no artigo sobre cuidados pós-tatuagem, que é a leitura que eu peço antes mesmo da sessão, para você já chegar sabendo o que vem depois.
Perguntas que sempre chegam
Não faça isso. A orientação da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro é se alimentar pelo menos três horas antes. Chegar em jejum é a causa mais comum de tontura, suor frio e mal-estar no meio da sessão. Coma uma refeição de verdade e leve algo doce para uma pausa.
Eu prefiro que não. A orientação é evitar álcool no dia, e ressaca conta como álcool no corpo: você chega desidratada, mal dormida e com tolerância baixa. Álcool também interfere no sangramento durante o procedimento. Se a véspera foi de festa, me avise que a gente remarca sem problema.
Não rente e não na véspera. Depilação agressiva perto da sessão deixa a pele irritada e com microlesões, e eu não trabalho sobre pele nesse estado. Se precisar aparar, faça com antecedência. No dia, eu preparo a região da forma correta com água e sabão mais álcool 70% ou PVPI alcoólico.
Peça que dê acesso fácil à região e que você não se importe de manchar, porque sai plasma e tinta. Prefira larga, também para a volta para casa, já que tecido colado sobre tatuagem nova é atrito contínuo. Leve um casaco: é comum sentir frio durante a sessão mesmo em dia quente.
Precisa, mesmo que pareça irrelevante. Anticoagulante, isotretinoína, imunossupressor e uso contínuo em geral mudam decisões e às vezes indicam adiar. Eu não faço avaliação médica: quando o caso pede, eu adio e peço que você converse com um profissional de saúde antes de a gente marcar.
Pode, quantas vezes precisar e sem justificar. Beber água, respirar, esticar o corpo, ir ao banheiro. Corpo tenso responde pior e é mais difícil de trabalhar, então a pausa também é do meu interesse. Prefiro várias interrupções a uma sessão inteira com alguém rígida de tensão.
Nenhum número aqui é chute. Cada prazo, percentual ou norma citada acima veio de uma destas fontes, e onde a literatura não tem resposta fechada o texto diz isso em vez de inventar. Nada substitui avaliação de um profissional de saúde.
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