Como se preparar para a sessão de tatuagem
Comida, sono, roupa, documento e cuidado com a pele da região. O que fazer na véspera e no dia para a sessão ser mais tranquila do que você imagina.
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Adiar uma tatuagem nunca me custou nada e já me poupou muito. Este é o texto em que eu explico, sem alarmismo, quais situações me fazem preferir remarcar. Nenhuma delas é diagnóstico meu, porque diagnóstico não é o meu trabalho. Todas elas são o mesmo raciocínio: quando o corpo ou a decisão não estão prontos, o desenho espera.
Agenda de papel aberta com uma data circulada a caneta, ao lado de uma xícara
Preciso começar por aqui porque o resto do texto depende disso. Eu sou tatuadora, com mais de dez anos de trabalho, e não sou profissional de saúde. Nada do que você ler aqui é avaliação clínica, nem sobre você nem sobre ninguém. O que eu faço, diante de qualquer uma das situações listadas abaixo, é sempre a mesma coisa: eu adio a sessão e peço que você converse com quem é da área.
Isso frustra algumas pessoas, e eu entendo. Quem já se organizou, tirou o dia, escolheu o desenho e criou expectativa não quer ouvir remarcar. Mas a alternativa seria eu opinar sobre coisa que não me cabe, e opinião de tatuador sobre condição de saúde é exatamente o tipo de conselho que ninguém deveria seguir.
A boa notícia é que a maior parte dessas situações é temporária. Gripe passa. Queimadura de sol descama e some. Um remédio termina o ciclo. Uma dúvida se resolve numa consulta e você volta com a resposta. Adiar quase nunca significa não tatuar; significa tatuar em condição melhor, com a pele íntegra e o corpo inteiro disponível para cicatrizar.
A orientação da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro é evitar álcool no dia da tatuagem, e eu trato isso como condição de sessão, não como sugestão. Se você chegou tendo bebido, a sessão é remarcada. Álcool interfere no sangramento durante o procedimento, o que atrapalha a leitura do traço enquanto eu trabalho, e deixa a região mais reativa depois.
Ressaca entra na mesma conta. O corpo ainda está desidratado, mal dormido e com tolerância reduzida, e a experiência costuma ser bem pior do que a pessoa esperava. Se a véspera foi de festa, me avise antes de sair de casa em vez de tentar disfarçar. Remarcar é simples e eu não vou fazer disso um problema.
O mesmo raciocínio vale para qualquer substância que altere percepção, coordenação ou capacidade de consentir com clareza. Tatuar exige que você esteja em condição de decidir sobre o desenho, o posicionamento e o tamanho, e que consiga ficar parada com consciência do que está acontecendo. Sem isso, não há sessão.
Gripe, febre, infecção em curso, aquela sensação de que o corpo está lutando com alguma coisa. Em qualquer um desses cenários eu prefiro remarcar, e o motivo é simples de entender: tatuar cria uma ferida, e ferida pede que o organismo trabalhe na cicatrização. Um corpo que já está ocupado com outra coisa não está no melhor momento para receber mais uma tarefa.
Febre é o critério mais direto de todos. Se você está com febre, não tatuo, ponto. E vale notar que febre também é um dos sinais de alerta de infecção depois da tatuagem, listado pela Cleveland Clinic. Não faz sentido começar um processo já com o sinal ligado, porque depois fica impossível saber a que ele se refere.
Aqui em Curitiba, entre a virada de tempo e o inverno, essa conversa acontece bastante. Ninguém quer perder a data marcada. Mas remarcar por causa de uma gripe custa uma semana, e insistir custa uma cicatrização mais difícil e uma sessão bem mais desconfortável do que precisava ser.
Eu não tatuo sobre pele lesionada, e essa avaliação é visual e é minha. Ferida recente, machucado, corte, dermatite ativa, alergia em curso, área com bolinhas, pele descamando, região com irritação de depilação. Nada disso recebe agulha. A pele precisa estar íntegra para que o pigmento seja depositado como deve e para que a cicatrização siga o curso esperado.
Queimadura de sol é o caso mais frequente e o mais fácil de evitar. Pele vermelha, quente ou descamando de sol já está em processo inflamatório. Tatuar ali dói muito mais, sangra diferente e cicatriza de forma imprevisível. Se você voltou da praia no sábado e a sessão é na segunda, na região que pegou sol, me avise: a gente remarca sem discussão.
Pinta é categoria à parte e é a única em que não existe remarcar, existe reposicionar. Eu não tatuo sobre pinta em nenhuma circunstância. A Academia Americana de Dermatologia registra que falta pesquisa ligando tatuagem a câncer de pele, mas que o risco concreto é a tatuagem disfarçar um câncer de pele e atrasar o diagnóstico. Pigmento por cima de uma lesão atrapalha a leitura visual dela, e isso não vale por nenhum desenho.
Existe um grupo de situações em que eu não digo sim nem não: eu adio e peço avaliação de um profissional de saúde antes de agendar. Gravidez e amamentação, diabetes, distúrbio de coagulação, uso de anticoagulante, uso de isotretinoína, imunossupressão, epilepsia, alergia a látex e alergia a anestésico local. Essa lista não é para assustar; ela é para você saber o que precisa entrar na conversa.
Nenhum desses itens significa automaticamente que você não pode tatuar. Significa que a decisão não é minha e não deveria ser tomada com base no que eu ou você achamos. Alguns casos exigem apenas um ajuste de material, como no caso de alergia a látex. Outros exigem esperar um período. Outros pedem que a pessoa converse com quem acompanha o quadro dela.
O que eu peço é que você me conte antes, e não no dia. Não filtre a informação achando que não é relevante. Um remédio de uso contínuo que você toma há anos e nem lembra mais que toma é exatamente o tipo de dado que muda a conversa. Não existe pergunta boba nesse assunto, e eu prefiro ouvir informação demais a descobrir tarde.
Tem um dado que eu gosto de compartilhar porque explica por que eu insisto tanto em conversar antes. A Academia Americana de Dermatologia registra que a tatuagem pode desencadear doenças de pele em quem tem predisposição: psoríase, eczema, vitiligo, líquen plano, queloide e sarcoidose. O aparecimento costuma acontecer entre três e vinte dias depois, mas pode acontecer anos depois.
Esse intervalo de anos é o que mais surpreende. Ele significa que uma reação pode não ter nenhuma relação temporal óbvia com a sessão, e que a pessoa pode nem associar uma coisa à outra. Não é motivo para pânico, é motivo para você mencionar o seu histórico de pele antes, e para procurar um dermatologista se algo aparecer depois, mesmo muito depois.
Para dimensionar sem exagero: numa série hospitalar de Copenhague com quatrocentos e noventa e três eventos adversos em quatrocentos e cinco pacientes, a sarcoidose apareceu em cinco por cento dos casos. É uma parcela pequena de um conjunto de pessoas que já procuraram atendimento por algum problema, o que não é a mesma coisa que a população geral que tatua. Eu prefiro te dar o número com esse contexto a repeti-lo solto.
Uma boa parte dos adiamentos que eu sugiro não tem relação nenhuma com saúde. Decisão apressada é o primeiro. Quando alguém me escreve dizendo que quer tatuar amanhã, com uma ideia que surgiu ontem, e a mensagem tem aquele tom de urgência que não combina com o assunto, eu costumo propor esperar. Se a ideia for boa, ela continua boa daqui a um mês.
Desenho que ainda não fechou é o segundo. Se você olha a proposta e sente algo fora do lugar sem conseguir apontar o quê, esse desconforto é informação e não capricho. Eu prefiro redesenhar três vezes a colocar na sua pele uma versão que gerou dúvida. Traço fino não perdoa arrependimento de composição, e depois a conversa vira cobertura ou laser, que são assuntos bem mais complicados e que eu trato em artigo separado aqui no site.
O terceiro é o momento emocional. Tatuar logo depois de uma perda, de um término ou no meio de uma crise é uma decisão que muita gente toma buscando marcar um ponto de virada. Às vezes funciona muito bem. Às vezes a pessoa olha aquilo dois anos depois e vê só o pior mês da vida dela desenhado no braço. Eu não julgo essa escolha e não sou quem decide por você. Só costumo perguntar se dá para esperar mais um pouco, e a resposta sincera a essa pergunta já diz bastante.
Sem drama e sem sermão. Se eu percebo alguma dessas situações, eu digo o que vi, explico por quê e proponho uma nova data. Não existe punição, não existe cobrança por remarcar e não existe constrangimento. A única coisa que eu peço é que você me avise assim que perceber, e não quando já estiver na porta do estúdio, para que a gente resolva com calma.
Se o caso for de saúde, a minha frase é sempre a mesma: converse com um profissional de saúde e depois me conta. Eu não quero saber do seu diagnóstico, não preciso do seu histórico completo e não vou dar opinião sobre o que o médico disse. Eu só preciso saber se está liberado, e a partir daí a gente segue.
A tatuagem vai durar décadas. Uma semana, um mês ou três meses de espera não fazem diferença nenhuma nessa conta. O que faz diferença é começar com a pele em condição, com o corpo bem e com a decisão firme. Eu escrevi textos separados sobre como se preparar para a sessão e sobre a primeira tatuagem, e os dois partem exatamente desse mesmo princípio.
Perguntas que sempre chegam
Eu prefiro remarcar. Tatuar cria uma ferida e pede que o corpo trabalhe na cicatrização, e um organismo já ocupado com outra coisa não está no melhor momento. Com febre, eu não tatuo em nenhuma hipótese, até porque febre é também um sinal de alerta de infecção depois da sessão.
Essa decisão não é minha. Gravidez e amamentação estão na lista de situações em que eu adio e peço que você converse com um profissional de saúde antes de agendar. Eu não faço avaliação médica e não vou opinar sobre isso. Se houver liberação de quem acompanha você, a gente conversa.
Se a região que vai ser tatuada pegou sol e está vermelha, quente ou descamando, não. Pele queimada já está em processo inflamatório: dói mais, sangra diferente e cicatriza de forma imprevisível. Me avise antes de sair de casa e a gente remarca sem nenhum problema.
Nunca, em nenhuma circunstância. A AAD registra que falta pesquisa ligando tatuagem a câncer de pele, mas que o risco concreto é a tatuagem disfarçar um câncer e atrasar o diagnóstico. Nesse caso a solução não é adiar, é reposicionar o desenho, e a gente decide isso junto.
Não necessariamente, mas muda a conversa e me faz adiar até você falar com um médico. Uso de anticoagulante, distúrbio de coagulação, isotretinoína, diabetes, imunossupressão e epilepsia entram nessa lista. Me conte antes de agendar, não no dia da sessão.
Em quem tem predisposição, sim. A AAD lista psoríase, eczema, vitiligo, líquen plano, queloide e sarcoidose, com aparecimento geralmente entre três e vinte dias, às vezes anos depois. Mencione seu histórico de pele antes de tatuar, e procure um dermatologista se algo aparecer depois.
Nenhum número aqui é chute. Cada prazo, percentual ou norma citada acima veio de uma destas fontes, e onde a literatura não tem resposta fechada o texto diz isso em vez de inventar. Nada substitui avaliação de um profissional de saúde.
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